27/08/09

NÃO SE CONSTRÓI UMA VIDA COM AS MÃOS VAZIAS

Todo casal tem como premissa a construção da felicidade. A parceria. O companheirismo. Recrutam seus sonhos individuais àqueles em comum, e, juntos, projetam um futuro feliz. Somam o amor que sentem, as idealizações, carregam seu suprimento de aprendizado junto aos pertences pessoais, unificando o espaço físico pretendendo a comunhão de uma vida em conjunto. A chave do sucesso dessa construção, no entanto, que parece residir nesse apanhado de coisas, não está só na disposição de realizar sonhos, mas em todas as atitudes possíveis de angariar recursos para fazer acontecer o grandioso projeto de uma vida, apoiados um no outro, contando com o apoio e o empenho que cabe a cada um. Ambos são responsáveis, cada um na sua medida de comprometimento, pelo cumprimento destas ações que levarão adiante uma construção sólida, capaz de agüentar os reveses que a vida trouxer. Fortalecidos, capazes, companheiros, amantes e unidos.

Tanta idealização é possível de realizar? Depende. Cada casal desenvolve sua própria maneira de consolidar suas intenções, seus desejos íntimos de “dar certo”. Para construir essa realidade que busca a permanência de uma convivência harmoniosa, tem que ter presentes alguns componentes que permeiem essa construção: edificá-la sobre valores fortes e em comum - respeitando sobremaneira a bagagem individual que cada um trás de crenças, regras e valores, adaptando os aprendizados particulares aos novos projetos de casal - uma incessante determinação, o querer absoluto, a disposição para ajustar as velas enquanto navegam, respeitando a turbulência que encontrem, somando forças e sentimentos. O ânimo estabelece os passos a serem dados, recuando quando necessário e acelerando quando preciso. É o “chegar junto” nas decisões, incluindo a presença e as idéias do parceiro, a procura por soluções evitando disputas e depositação de “culpa”. Orquestrar essa construção e definir a consolidação dos desejos de ambos envolve maturidade, requer desenvolver na prática as teorias da boa convivência, boa vontade e boa disposição. O casal que descuida da constante atenção que pede um relacionamento corre o risco de ignorar as oportunidades e não aproveitar as discretas possibilidades que surjam, assim como frustrar-se por idealizar a perfeição do desempenho de seu par. O ônus é o enfraquecimento da união, uma vez que cumprir as tarefas diárias implica em erros, imperfeições e enganos involuntários, assim como naturais momentos de menor disposição e tentativas tímidas.

Não dá para entrar num relacionamento de mãos vazias, e isso quer dizer reunir um conjunto de ações efetivas que concretizem as promessas, lembrando que isoladamente não se constitui parceria, assim como exigência alta acerca do comportamento do outro não contribui para erguer esse edifício. É importante que os argumentos usados para negociar os passos que o casal terá de dar tenham componentes suficientes de verdade e intenções, para, juntos, alcançarem as metas desenhadas a quatro mãos e dois corações.

12/08/09

CASAL & COMUNICAÇÃO

Para atender o interesse manifesto sobre casais, pensei em abordar um tema comum na clínica - a comunicação - e suas dificuldades quase sempre não percebidas pelo casal, me lembrei da crônica Tênis e Frescobol de Rubem Alves. Por ser extremamente apropriada, sua reflexão me empresta a exatidão do que abordar. O casal talvez precise somente de uma “prosa” para refletir e caminhar em direção das mudanças, como Rubem sugere quando faz uso da analogia da fala (prosa). Ao ‘brincar’ com as palavras na crônica, ele se refere a dois tipos de fala: a tipo tênis, cujo alvo é o outro, pretendendo reduzi-lo ao silêncio, ter razão, ganhar na argumentação, convencer. Mas sempre termina mal, porque a parte ‘vencedora’ fica feliz, enquanto para aquele que perde, sobra a raiva e o sentimento de impotência. No frescobol é muito diferente, porque a felicidade do jogo está justamente no estar acontecendo, registrando um prazer permanente, prolongando as delícias do estar junto. Não existem adversários, mas parceiros afinados, propensos a colaborar com a performance do outro.

Para o autor, são dois os tipos de casamento: os do tipo tênis e os do tipo frescobol. “Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.”

Rubem lembra que Nietzsche defendeu a idéia de que “Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice?’ Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.”

De igual forma ele cita a história de Xarazade, que também tinha conhecimento do poder da magia das palavras.

Alves pondera que existem os carinhos que se fazem com o corpo sim, porém, há os que se fazem com as palavras. “É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.”

Ele ressalta que o jogo de tênis é um jogo feroz, que procura derrotar o adversário. “E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir sua cortada” ou seja, fazer o corte na conversa, interromper o outro, derrotá-lo, deixá-lo fora de jogo.É a alegria de um e a tristeza do outro. Já no frescobol, para o jogo ser bom é necessário que ninguém perca. Se a bola chega torta o outro sabe que não foi de propósito e se empenha muito para devolvê-la de um jeito que o outro possa pegá-la. Não dificulta. Colabora. A bola do jogo são nossas fantasias, nossos sonhos contados sob a forma de palavras. E conversar é dividir com o outro esses sentimentos, tentar partilhar com harmonia. “Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada.” Porque no tênis o que se busca é ter a razão, e o que se ganha em troca é o distanciamento. Nesse jogo, quem ganha sempre perde. No frescobol é muito diferente: o sonho do outro é preservado, reconhecido como coisa delicada, do coração. Quem joga frescobol é bom ouvinte, e neste jogo o que cresce é o amor e os dois ganham.

Finalizo sinalizando meu desejo de que a opção pelo frescobol traga a harmonia, o equilíbrio e a felicidade que todos buscam nos relacionamentos. Reitero o que o autor salientou: o tênis é um jogo feroz, o frescobol envolve o cuidado com os sentimentos, os sonhos do outro. Os casais podem escolher gestar e parir um relacionamento feliz, e ainda que envolva a dificuldade na construção dessa configuração de comunicação ideal, é possível. E bonito de se viver!

16/07/09

INVERSÃO DE VALORES?

Vivemos numa época em que viver só, é um peso, as pessoas desaprenderam algumas coisas e criaram dependências que não conseguem preencher.

As gerações anteriores direcionaram o indivíduo para a procriação e a construção do núcleo familiar. Manutenção da espécie. Isso veio sofrendo alterações que retumbaram na realidade atual, em que as famílias estão em mutação, gerando novas formas de constituição.

Passar pelos rompimentos dos paradigmas e quebra das estruturas indestrutíveis veiculadas por uma sociedade hoje moderna, nos leva às novas modalidades conjugais, às famílias reconstituídas, mas esbarra na desventura da solidão.

Cresce assustadoramente a necessidade de preencher esse vazio existencial. A matéria de capa da revista Veja desta semana, “sozinhos.com?” mostra a brutal realidade: as pessoas se isolam do convívio social, optam pela reclusão que lhes conferem as relações virtuais, sejam amorosas ou de amizade. A matéria aborda a insuficiência das respostas afetivas mais profundas buscadas pelos indivíduos nessas interações, no entanto, as redes sociais aumentam na mesma proporção da solidão a que estão confinados.

Esses novos comportamentos levam à busca de procurar entender essa sede de amor que estamos desenvolvendo, sem nos darmos conta das necessidades que criamos nessas relações. A insatisfação parece não mostrar as impossibilidades existentes nessas relações precárias. Virtualmente não é possível trocar emoções, toques, sensações e vivências. São laços tênues, conseqüências de relações efêmeras, inconsistentes. Servem para maquiar o sentimento de não estar só. Preenchem, aparente e momentaneamente, o vazio da solidão.

A maior dificuldade talvez resida na resistência que oferecemos ao processo de autoconhecimento, mergulhando fundo nas nossas emoções, descobrindo-nos sem máscaras. É muito difícil construir relações de dependência afetiva. Elas machucam e não se mantêm. Não há como sustentar o que só existe no imaginário ou é fruto do desejo, nem alimentar ilusões para sempre. Só é possível compartilhar o que existe.

Se por um aspecto a evolução ganha espaço e nos permite crescer como pessoas, conquistando méritos e desenvolvendo nossos potenciais, por outro ficamos à mercê das nossas necessidades mal entendidas, gerando uma desesperada busca que acentua o quadro de pessoas solitárias, que encontram dificuldades cada vez maiores em colocar-se em silêncio interior; compreendendo que para poder relacionar-se com o outro, antes precisa estabelecer consigo mesma uma relação amigável, transitar por suas emoções compreendendo seus sentimentos.

As pessoas criaram dependências que não conseguirão preencher porque não cabe ao outro completar ninguém. O vazio é interno e particular. A “salvação”, também!

ESCONDEMOS NUM SORRISO, A DOR?

Tenho presenciado o sofrimento mudo nas pessoas, tão bem camuflado, que a surpresa diante de um choro que se rompe porque acabaram todas as forças para esconder as dores, é imensa. E quando me refiro à dor, falo daquele sentimento intenso, que não permite dúvida do quanto essa pessoa está em sofrimento. O que menos importa, são os motivos. Tudo ganha proporção individual, pois se para um o “problema” é supérfluo, para o outro representa a imobilização diante das dificuldades que não consegue superar, do sentir doído que a consome e infelicita.

Ao entrar em contato com a dor que aflige as pessoas, percebo que, se quem as olha, soubesse o que carregam no coração, assombrados veriam que mostram para todos o picadeiro de um circo no lugar onde o que existe é um vale de sombras.

O sentimento de angústia que está disfarçado no “sorriso amarelo” muitas vezes traduz um sentimento semelhante à ausência do sol em suas vidas, embora todos os dias pendurem as roupas no varal para quem passa, vê-las secando ao sol. A metáfora fala muito dessa entrega ao sentimento interno de dor, repassado com artifícios enganosos um estado de espírito e de ânimo infinitamente distante da realidade íntima. Pisar nesse palco e atuar esse script nos valendo das defesas que encontramos, por si só já demanda um gasto extra de energia no desempenho dessa representação nem sempre brilhante. Há quem perceba a fraude, mesmo que não alcance sua magnitude.

Mas isso se deve a quê? Faltam recursos para essas pessoas ultrapassarem os obstáculos que encontram? São “fracas”? Por que usam essa máscara?

Não existe uma resposta, mas nos permite levantar hipóteses consistentes, que podem levar a entendimentos satisfatórios. Primeiro, talvez fosse bom lembrarmos que não existe uma verdade única, talvez nem haja verdade e sim possibilidades de interpretação, busca de entendimento. Compreender e acolher a única maneira que essa pessoa encontrou de lidar com suas questões, sem tentar mensurar, analisar, julgar, diagnosticar, criticar, classificar ou rotular nada, é a melhor atitude para “ajudá-la”. Basta o seu sofrimento, não há mais lugar para preocupar-se com as interpretações vazias que podemos oferecer. Nossa maneira de ver uma mesma questão pode ser totalmente diferente, e não temos o direito de a impingir ao outro. Talvez nem houvesse, no momento, outra possibilidade, e o que nos sugere fraqueza pode ser exatamente a coragem da escolha valente de não se entregar, a opção de preservar pessoas amadas, a si próprio. Aliás, coragem esta que irá fortalecer a pessoa a partir da necessária ampliação da percepção no processo de conscientização que pode promover as mudanças gerando um resultado que pressupõe crescimento, evolução.

Enquanto isso ocorre, o respeito pelo outro passa pelo olhar da compaixão, da generosidade, das atitudes fraternas e pelo sentimento de solidariedade. Nem precisaríamos saber das trevas que entristecem as almas das pessoas, bastaria que lhes oferecêssemos nosso silencioso apoio. E quem sabe, dependendo do nosso envolvimento afetivo, acompanhado de um abraço acolhedor. Talvez a máscara cedesse lugar ao alívio cura-a-dor.

15/07/09

ÀS VOLTAS COM NOSSAS EMOÇÕES

A percepção acerca da instabilidade das nossas emoções acaba por gerar intimamente sensações desagradáveis, remetem a sentimentos de tristeza, melancolia, geralmente trazendo a reboque indagações interiores cujas respostas não surgem com clareza suficiente, aumentando a angústia da incompreensão do emaranhado de emoções, embora muitas vezes sequer tenham origem definida. Já disseram que a emoção é “um coquetel de sentimentos”, porém, essa mistura não vem dosada somente para agradar, podendo travestir-se de veneno que precisa de antídoto para reverter seu mal. Intoxicar-nos desse “drinque” é consumirmo-nos nessas emoções, perdendo-nos de nosso caminho, conduzidos pelo frágil comando daquele momento indefinido, mas poderoso para desviar-nos ou nos afastar dos sentimentos opostos.

A nossa força interna desmistifica o poder aleatório que conferimos a esse conjunto de emoções danosas. Somos infinitamente superiores em força para reverter esse processo íntimo, subordinados a impermanência normal das experiências da vida, incluindo o mundo das sensações, das emoções e sentimentos que se refazem, mudam e se alteram sem roteiro estabelecido ou script que os coordene. Transitamos o tempo todo por esses estados de instabilidade emocional, restaurando sentimentos e valores. Aprendemos a crescer - a soltar, deixar ir e a reter – trocamos as lentes de ver o mundo e mudamos o panorama, convivemos com essas sensações de incompletude, de inconstância, de perda, de ganho, de achado e perdido. A polaridade dessas emoções resgata em nós a resiliência (lembram dela?) que construímos para defender nossa estrutura psíquica, de espírito e corporal.

O coquetel pode causar leve tonteira, mas encontramos a porta de saída. O gosto pode ser forte, até amargo, porém, temos o gosto doce da esperança que habita em nós, além da capacidade ímpar de revolucionar tudo e construir novos castelos sobre os escombros. A estabilidade emocional requer instrumentar-se para enfrentar as dificuldades, porém, este é um processo infinito, onde não cabe a deliberação de uma solução redentora que extermine a névoa que envolve as nossas inesperadas – e inconstantes -emoções.

02/07/09

ESSE ILUSTRE E PODEROSO AMOR

Já percebeu como normalmente o amor responde aos nossos mais intensos anseios, e, em seu nome, praticamos atrocidades à nossa própria estima? E não satisfeitos, num voo cego debitamos na conta do amor os infortúnios que acontecem à vida, e a ele – sua falta ou forma - responsabilizamos por nosso estado de frustração, por estarmos temerosos e adoecidos.

No entanto, toda atitude que demande consciência de nossas faltas e excessos é a via que oferece possibilidades de mudança, porque essa é uma consciência crítica, aquela que faz uma leitura imparcial capaz de reconhecer onde estamos criando negativamente as ações que destroem as nossas mais belas projeções e sonhos de felicidade, e promovem soluções possíveis e desejáveis que alteram o rumo desse processo destrutivo.

Nosso coração é capaz de identificar esses pontos, mas também pode se recusar a ver alternativas ou valer-se da lamuriação que nos toma de assalto e transforma em coitadinhos, sofredores, desejosos de cuidados e mimos ao nosso lado frágil. É um engodo que alimenta as fantasias ilusórias de causadores e efeitos: alguém nos machuca, não somos nós que atraímos ou escolhemos. O amor, esse ilustre salvador de nossos estados infelizes, tem o poder transformador em nossas vidas. Nós lhe conferimos esse status. Damos-lhe esse poder. E de fato o tem, desde que encaremos a realidade: estar atentos à versão das infinitas possibilidades de que dispomos enquanto seres criativos e criadores de nossas sagas e lendas, é o único caminho libertador desse engano. E que vai nos permitir viver, em plenitude, o amor.

CRISES E CRESCIMENTO

No processo que é viver, nos deparamos com momentos dramáticos, difíceis, nos pondo em xeque a estrutura e equilíbrio emocional. As crises têm a propriedade revolucionária de desacomodar tudo para estabelecer a ordem. Algumas, uma vez desencadeadas, são inevitáveis, e prenunciam ventos fortes e tempestades no horizonte. Quando estamos no olho do furacão, todas as ocorrências nos parecem sem sentido, achamos desnecessárias ou extremadas. Porém, não tem como sobrar pedra sobre pedra num evento suficientemente mobilizador. A crise surge mansamente, sorrateira, sem aviso, ou, de maneira oposta, chega contundente, muitas vezes como uma avalanche, decompondo a estrutura já falida resultando em escombros assustadores.

Não raro enfrentamos situações que nos desafiam os limites, testam a perseverança e força de luta. Nos deparamos com vazios existenciais capazes de soterrar-nos a alma inexoravelmente. Poucas ou quase nenhuma alternativa parece eficiente para superar tantas emoções e sentimentos de desvalia e baixa estima. O que ignoramos no momento da fragilidade é o potencial que existe em cada ser, capaz de suplantar dores profundas e extinguir o sentimento de infelicidade. Nossa capacidade resiliente pode exceder a força da crise, assegurando-nos meios de ultrapassar as adversidades e sairmos fortalecidos, crescidos e mais capazes. Essa infinita força interior nos rege, abriga, defende e salva, lembremos dela ou não.

“Desarrumar a casa” pode ser absolutamente necessário para reconstruir caminhos. E embora a tendência imediatista exija pressa, convém lembrar que a parte mais delicada de toda construção é a fundação, pois deverá sustentar o edifício todo. Em outras palavras, crescer implica em calma, sabedoria para administrar as crises que são verdadeiros instrumentos dos processos evolutivos, porque a única coisa permanente em nossas vidas, é a impermanência.

Vale parar um pouco, silenciar internamente e espiar como é a reação diante dos momentos críticos, como lida com as dificuldades e gere meios eficazes para combatê-los. E quanto absorve de ensinamento consciente que permite fortalecer o sentimento de ganho pessoal, aumentando a auto-estima e reunindo novas alternativas para dar continuidade aos ciclos da vida, cujas “tormentas” sucedem para gerar as mudanças mais profundas.

29/06/09

NOSSOS MUITOS MAS NEM SEMPRE DEFINITIVOS PAPÉIS

Nascemos UM ser, mas desenvolvemos ao longo da vida vários papéis. Atuamos como seres sociais, em relação com o mundo que nos cerca, e acumulamos funções em cada diferente papel que desempenhamos. Nascemos filhos - podendo ser também irmãos - e nos tornamos além de netos, muitos outros. Nos transformamos de acordo com o contexto em que estamos inseridos e pelo contato com outras pessoas, e esses papéis se somam na mesma proporção que temos nossa rede de contatos ampliada. São os papéis familiares os primeiros que aprendemos a viver, de filhos, irmãos, netos, primos, sobrinhos, e afins. Somos pacientes do nosso pediatra, vizinhos dos moradores do mesmo prédio, telespectadores mirins dos programas infantis. Depois crescemos, vamos para a escola e ganhamos amigos, nos tornamos alunos. Surgem os amores da adolescência – adolescentes, mais um papel! – e somos namorados, estudantes, leitores de livros, aprendizes de toda natureza. Formandos, profissionais, empregados, chefes. Noivamos, casamos, parimos, criamos filhos. Viramos marido, esposa, nora e genro, pais, sogro, tios, sogra, avós.

Cada um desses papéis nos define, embora não sejam definitivos ou engessem nossos comportamentos, visto que somos reconstrutores assíduos de nossas experiências. Todo papel tem regras, onde se esperam comportamentos semelhantes que são intrínsecos a um conjunto de pessoas especificas num mesmo contexto – por exemplo o papel “mãe” e todos os atributos que regem seu papel: a que ama, a cuidadora, educadora, aquela que faz comidinhas e coloca limites nos filhos, etc.

Contudo, embora o papel seja o mesmo, são diferentes as formas de desempenhá-lo, pois seguem normas culturais, premissas e regras adequadas a cada contexto. Claro que há pessoas que agem inadequadamente em alguns papéis que desempenham, assim como abandonamos alguns escolhendo ter outros. Olhe para si mesma(o) e perceba quantos papéis desempenha hoje em dia. Muitas vezes utilizamos estratégias que nos permitem conviver harmoniosamente dentro desse emaranhado desempenhando nossas funções nem sempre da mesma maneira. Não temos o mesmo comportamento até mesmo num mesmo papel, pois podemos ser amigos mas ter mais intimidade e afinidade com uns do que temos com outros, e isso, por si só, já produz diferentes comportamentos. Somos os pais de mais de um filho mas agimos com cada um de uma maneira para ensinar os mesmo valores.

Note-se que é impossível desagregarmos parte de nós- diferentes papéis – de forma a desempenhar somente algumas das outras. Muitos papéis estão entrelaçados e assim permanecerão pois há vínculos e laços que não se desfazem, e exigem que os levemos pela vida afora, inseparáveis de nossa própria natureza humana. Podem gerar dificuldades e pedir sabedoria na coexistência com os demais, assim como produzem prazer, alegrias e vivências essenciais. E isso não anula papel algum, apenas exige que, momentaneamente, um ganhe evidência sobre os demais, entrando mais fortemente em cena para retirar-se ao dar lugar a outro, numa sucessão ininterrupta de vida. Somos assim, compostos pelas diferentes atuações que pedem o papel naquele momento, em determinado contexto. Não podemos esperar que se desfaçam, extingam ou desvinculem, somente que se transformem e alterem diante da evolução natural da vida. Ser pais de crianças é diferente de ser pais dos mesmos filhos crescidos, mas seremos pais desses filhos para sempre.

A maturidade mantém os papéis essenciais existentes ampliando-os e modificando outros, mas é uma fase do ciclo da vida de todos nós que provoca novas situações seqüenciais cujas características irão determinar novos comportamentos, como o papel de aposentados, idosos, gerando limitações que acarretam dependência e adequações.

Quanto maior o número de papéis que tivermos, mais inseridos no contexto social estaremos, o que requer mais disponibilidade e boa vontade na luta diária que é ganhar mais bagagem de vida, pois os papéis sofrem efeito cumulativo nesse processo que é viver. Observamos na atualidade papéis já incorporados na vida moderna, como os resultantes das famílias recasadas, tendo ex-maridos e ex-mulheres, padrastos e madrastas - que se já eram pai ou mãe, não deixam de sê-lo, agregam novos papéis no contexto amplo que inclui um marido ou uma esposa, novos familiares e amigos. É a chamada família extensa.

E esse movimento cíclico nunca se rompe, porque esta é a forma que a humanidade se organizou. E é através desses papéis que vivenciamos nossas emoções, nos conhecemos melhor na medida em que identificamos enganos, ajustarmos posturas, modificamos e corrigimos nossos atos. Crescemos, aprendemos e evoluímos.

20/06/09

MANUTENÇÃO DO DESEJO INTERNO

A necessidade de manutenção da fidelidade para com nossos objetivos e ideais, por mais que todas as outras pessoas insistam para que tomemos outros caminhos, é o que nos move na decisão nem sempre fácil de estabelecer que são nossos desejos e prioridades que afiançam nossas escolhas. A importância majoritária de nossas escolhas evidencia nossas necessidades essenciais, internalizadas no desejo de cada um de nós. A lealdade para com esse compromisso interno é condição fundamental para a realização de projetos pessoais de vida, onde a persistência dilui qualquer consideração externa quanto a imponderabilidade de questões de natureza puramente subjetiva.

O mistério que cerca a vida e nossa condição humana pode ser tempero que apimente ou suavize nossas vivências. A postura de cada um de nós determina em qual sentido conduzimos essas experiências e aponta os resultados desse crescimento voluntário. Caminhar sabendo para onde queremos ir é meia chance de conquistar os objetivos, de chegar onde supomos que era o ideal. Transformar metas em meras intenções não nos coloca em lugar nenhum, exceto no da ilusão de que estamos construindo alguma coisa com real significado e permanente desenvolvimento humano.

Manter-se fiel ao desejo mais secreto que habita e cresce em nós é ato de coragem, mostra de perseverança, atitude valente e intransferível. No entanto, esse processo pode ser mediado pela serenidade, própria de quem traçou o caminho na segurança da escolha anterior, reconhecendo a inevitabilidade de alguns aspectos intrínsecos e outros casuais, que se juntam num complexo desenrolar das interfaces de todas as infinitas possibilidades que podem determinar a composição e trajetória de nossa história de vida.

05/06/09

QUERO MUDAR!

Somos capazes de sentir um intenso desejo, necessidade preeminente de mudanças, e, cheios de incertezas, procuramos meios que permitam esse processo. Sim, é um processo, e acontece recheado de tentativas, medos, decepções e quase desistências antes que se efetive. Demanda tempo e esforço. Empenho que descarta o outro e suas ações, porque é um processo individual, que se define pela trajetória do desejo interno. Pode ser estimulado pelas necessidades decorrentes das nossas relações com o mundo, mas tem que partir de si o desejo. E não ganha corpo se ficar dependente das atitudes dos outros, muito embora sejamos seres em permanente relação, pois elas sofrem alterações na medida em que novos comportamentos surgem no cenário relacional. Mudamos todos, o tempo todo e sem aviso prévio.

Ocorre, no entanto, durante o processo de buscar mudanças, algumas dependências da validação das pessoas que nos cercam, suas aprovações – ou reprovações – que podem interferir na determinação de quebrar velhos conceitos, mudar regras enraizadas há anos, modificar a visão de mundo mediante novas exigências das diferentes fases da vida, fechando ciclos e provocando mudanças de sustentação a essa fase inaugural que pretende conseguir novas maneiras de encarar a vida, seus supostos problemas e possíveis soluções.

A rigidez de comportamento costuma ser o principal empecilho nessa caminhada rumo ao novo, portanto, identificá-la e flexibilizar é a alternativa primeira que abre passagem para a viabilidade de nossas intenções, sustentadas pelo desejo profundo, que alimenta a coragem de mudar padrões tão velhos quanto nossas perspectivas. Vencer o medo da iniciativa, daquela escolha que faz palpitar a expectativa de estar tentando, mesmo que pareça frustrada a ação porque não ganhamos o apoio esperado ou tão importante para dar continuidade ao processo. Talvez o outro esteja tão preso aos seus valores que não ceda espaço para a importância que teria responder em apoio o mínimo gesto - mínimo? para quem? – e talvez não o valorize porque nem o perceba. Sem intenção, não oferece conforto nem demonstra apoio.

É certo então que se ficarmos reféns do impacto das atitudes que observamos em relação às nossas tentativas, não avançaremos na direção da mudança almejada. Convém não perder de vista que o importante no início não é o aplauso do outro pelas nossas tímidas tentativas – podem ser grandiosas para nós (e devem sê-las) - mas o efeito bom que sentimos e, se atentos, percebemos nas nossas sensações, aquelas que acontecem silenciosas em nosso mais intimo contato interno e servem de termômetro e bússola que indicam que estamos no caminho, ainda que a passos curtos, mas do tamanho de nossas possibilidades naquele momento. Respeitar o próprio ritmo, entender que o potencial existe e mudar depende da gente e não do outro, e que haverão dificuldades a serem vencidas com permanência e suficiente resiliência (capacidade de superação), é dar-se permissão para errar e corrigir a rota; é maturidade e entendimento. É valoração pessoal, a única que realmente importa.

Os meios de alcançar nosso objetivo podem sofrer alterações ao longo do processo – certamente inventamos novas alternativas quando falham aquelas que pensávamos ser as melhores - mas manter a capacidade de avançar apesar de não obter ganhos imediatos, é alicerçar o futuro que trará os efeitos desejados, as mudanças pretendidas e buscadas apesar dos descaminhos.

Consideremos nesta reflexão a sabedoria de Saint Germain que serve de grande estímulo para quem deseja atingir o ideal de mudanças: “Ninguém fracassa enquanto não se rende.”